23/06/2009

A dose certa das coisas

Os excessos são desvendados pela filosofia, pela ciência e pela sabedoria popular. Cada uma, a sua maneira, diz: para tudo é preciso encontrar

Por que algumas pessoas não se atrevem a dar um passo sem antes consultar um oráculo e seguem à risca o comando que vem de fora? Que exagero! Por que outras precisam consumir e comprar e consumir e comprar... e nunca ficam satisfeitas? Que exagero! Por que há gente que se prende à palavra divina tão literalmente que perde de vista a multiplicidade de expressão do sagrado? Isso gera intolerância. Que exagero! Vamos então entrever o que pode estar por trás de atitudes assim. Se oferecemos ao outro – seja um vidente, seja um oráculo de plantão – o pleno poder de decidir nosso destino, então nos eximimos de responsabilidade. Esse é, no mínimo, um mau uso dessa alternativa de autoconhecimento. Quem desenvolve um trabalho sério na área de astrologia ou tarô, por exemplo, garante que o mapa astrológico e as cartas sinalizam apenas possibilidades e não cristalizam destinos. Ou seja, a escolha é sua, e isso é um tesouro a ser defendido. Os consumistas desenfreados podem estar em freqüência semelhante ao dos crédulos dessa natureza. Buscam fora o preenchimento de um vazio que, às vezes, nem eles mesmos sabem definir qual seja. Então o passo essencial para evitar radicalismos é sempre voltar-se para si.

“CONHECE-TE A TI MESMO”

Essa célebre frase repetida pelo grego Sócrates (470- 399 a.C.) é uma das pérolas do conhecimento universal. Mas ela não se encerra aí. O filósofo também alertava: “Mas nada em excesso”. E aqui vale a pergunta: o que o excesso significava naquela época? “Exceder era se deixar levar pelas paixões, agir sem racionalidade e sem inteligência, perder a autonomia das situações”, explica Luiz Felipe Pondé, professor de filosofia da Fundação Armando Álvares Penteado. E por que é tão importante ter autonomia? Porque ela sinaliza que estamos usufruindo da liberdade com responsabilidade, o que significa se sentir dono das próprias decisões, arcando com os riscos e as conseqüências, sejam bons ou ruins. Vamos além: a autonomia é sinal de paz interior, um sintoma de que se está à vontade consigo mesmo. “E essa autonomia está relacionada com a maturidade e o sentimento de realização. Porém nada disso é estático. Maturidade não é algo que a gente conquista e tem para sempre. Todos nós passamos por fases mais maduras e autônomas e outras mais vulneráveis e frágeis”, lembra a psicoterapeuta Ana Tereza Camasmie. É justamente nesses períodos de fragilidade que, por vezes, deixamos de confiar em nossa percepção e duvidamos de nossa capacidade de lidar com as situações. Pronto! Essa é a cena perfeita para cair em tentação e procurar fora ou delegar ao outro a decisão de qual a melhor trilha a seguir e, daí, fazer plantão na porta de algum vidente, por exemplo. Diante disso: calma nessa hora, res pire profundamente e não salte para o extremo oposto, se culpando por ser frágil e indeciso. “Ser maduro é também trocar de papéis e poder sentir-se frágil por uma fase – desde que se consiga fazer o caminho de volta. Apenas se essa fase for longa demais, a ponto de comprometer o dia-a-dia tanto seu quanto dos que o cercam, a ajuda de uma terapia é bemvinda”, arremata Ana Tereza.

O guru é você

Para quem não consegue tomar decisões sem antes falar com um guru e pauta a vida nas previsões dos videntes, é bom acionar o alerta. Conversar consigo organiza as idéias
Voltar-se para dentro é um ato de sabedoria. Dedique tempo para a tarefa de se conhecer. Fique atenta às próprias solicitações. Assim como se estivesse conversando com você mesmo. Fale em voz alta, como se contasse para outra pessoa sua situação. Tente seguir uma linha de raciocínio objetiva e sem ambigüidade. E pergunte: o que eu quero? O que me impede de conseguir? Como farei para alcançar o objetivo?
Calma para encontrar respostasEstamos vivendo a era do imediato, um desejo constante de que nossa vida se resolva num clique. “Tudo o que demora nos incomoda”, constata a psicoterapeuta Ana Tereza Camasmie. Há um tempo para perguntar e outro para encontrar a resposta. A pressa e a ansiedade podem distanciá-lo ainda mais de uma reflexão produtiva. Espere e confie. “Nós temos dificuldade em lidar com o essencial da vida, que é o imprevisível. Sendo assim, quanto maior for a dificuldade em aceitar o imprevisto, maior será a necessidade de buscar oráculos”, diz. Direcionar a vida só baseada em pistas certas é abrir mão das surpresas que muitas vezes são mais saborosas e, realmente, nos fazem evoluir. Assim, negocie com você mesmo e não se apegue em demasia ao controle e à busca de certezas.
A autoconfiança é um processo contínuo

Investigue as razões que o enfraquecem como seu próprio consultor. E responda: eu sempre precisei de alguém que confirmasse minhas decisões? Diante de um impasse, o que pode acontecer que mais me assusta?
Ponha fé na intuição“É no silêncio e na calma que os anjos sussurram em seu ouvido”, ilustra a psicóloga Tereza Kawall, lembrando que os insights acontecem quando menos esperamos, mas sempre quando há quietude interna e tolerância para esperar. Então, tente se aquietar para entrar em sintonia consigo e abrir espaço para a tranqüilidade.

Quando a crença se veste de intolerânciaÉ consenso dizer que não existe excesso de fé. Ela não pode ser submetida a quantificações nem qualificações. Mas é certo dizer, também, que a leitura fundamentalista dos textos sagrados pode resultar em um perigoso excesso: a intolerância religiosa. "A atitude fundamentalista rejeita o pluralismo religioso. Ela parte do princípio de que o texto que a fundamenta contém toda a vontade de Deus e que, por isso, outras expressões religiosas são equivocadas e devem dessa maneira ser combatidas”, conceitua Wagner Lopes Sanchez, sociólogo e pesquisador da ciência da religião. “O fundamentalismo é perigoso porque tira a historicidade da Bíblia. Esquece-se de que ela foi produzida em um certo momento da nossa história e, ainda, escrita por um grupo com interesses específicos, e traz simbologias típicas de uma determinada época”, explica Marcos Lobato Martins, professor de história na Universidade do Estado de Minas Gerais. A leitura saudável desse texto sagrado entende que nele estão escritos princípios morais, que devem ser interpretados e adaptados. A questão é quando se leva o texto ao pé da letra, sem admitir que o mesmo senso moral estrutura também outras mitologias. Sem essa flexibilidade e generosidade para compreender a fé do outro, pode-se desembocar em desrespeito e falta de limite. “Seguramente, temos muitos testemunhos históricos dos horrores praticados em nome de Deus em defesa de determinadas idéias religiosas. Além disso, é especialmente intrigante a intolerância ter assumido formas tão violentas assim justamente na religião que sempre apregoou uma ética baseada no amor, no perdão e também na conciliação”, reflete Valério Guilherme Schaper, professor de teologia sistemática e ética da Faculdades EST, em São Leopoldo, RS. Por outro lado, o ecumenismo desponta como uma atitude contemporânea e saudável em relação ao convívio das religiões. “De certa forma, o ecumenismo é a rejeição da intolerância religiosa nas fronteiras do cristianismo, mas que se deve abrir também para as demais religiões”, aponta Wagner Lopes Sanchez. O ecumenismo foi entendido como um movimento depois da Segunda Guerra, mas é uma esperança em relação ao diálogo entre os fiéis. O próximo passo é o macroecumenismo, que se estende para outras religiões, traçando um caminho de paz em que a intolerância cede a vez e a compreensão ganha espaços.
Comprar, comprar,
Cada vez mais freqüente gente que se atrapalha em dívidas. E quando se esmiuça a fatura, por vezes descobrimos que o exagero poderia ter sido evitado – muitas das aquisições foram feitas por impulso e sem necessidade. “No mercado financeiro, o crédito nunca foi tão facilitado, com prazos elásticos e empréstimo rápido. O apelo para a compra é crescente, muitas vezes dando um sentido de identidade para pessoas”, afirma Márcia Tolloti, psicanalista e autora do livro As Armadilhas do Consumo (ed. Campus). E não há problema algum em se exceder nes se quesito esporadicamente, mas deve-se ter atenção quando ele se torna regra e passa a comprometer as finanças. Para escapar desse tipo de situação, não basta tirar o cartão de crédito da bolsa. É importante perceber as razões que detonam o exacerbado impulso para consumir. Os especialistas apontam que por trás do desejo de gastar desenfreadamente podem estar, entre outras coisas, a carência e a dificuldade em lidar com uma série de sentimentos, como a insegurança. A psicanalista Márcia Tolotti sugere um caminho: “Muitos acreditam que não podem suportar tristezas, frustrações e desilusões, então compensam comprando na esperança de preencher a alma”. A solução? “Faz parte do ser humano a sensação de falta. Mas ela é passageira, assim como a satisfação. Se conseguíssemos compreender isso, suportaríamos mais a angústia. A percepção do vazio, inclusive, é combustível para lutar, crescer, se conhecer e buscar um sentido para a vida”, argumenta a psicanalista. Enfim, ninguém está dizendo que você deve parar de comprar. Mas a chave é, mais uma vez, moderação e discernimento sobre a real motivação. Vale saber que, além da chance de se endividar, o excesso de compras produz também um efeito nada agradável: pilhas e pilhas de lixo. Portanto, uma sugestão: se pintar o baixo-astral, guarde o cartão de crédito. Esse é um bom negócio!
Consumismo gera lixoSe você pensa que o efeito do consumismo diz respeito apenas a sua própria vida, se engana. O planeta inteiro é afetado. Ícones de hoje, os eletrônicos também estão entre os primeiros itens de descarte. A vida de um eletrônico não termina quando nos desfazemos dele. A partir desse ponto, ele traça uma trajetória que pode interferir mais na vida do que quando estava em nossa estante. Quem joga luz nessa questão é Ângela Cássia Rodrigues, da FGVOnline, que estuda a questão do lixo eletrônico há décadas.

BONS FLUIDOS: O que significa lixo eletrônico?
Ângela: Grandes e pequenos aparelhos eletrodomésticos, celulares, equipamentos de vídeo e som, equipamentos de informática, ferramentas, brinquedos, artefatos de iluminação e controle, descartados por seus usuários.

BF: Quais malefícios eles causam ao organismo e ao planeta?
AR: Esses produtos têm substâncias perigosas, como cádmio, mercúrio, chumbo, arsênio, berílio. Algumas delas podem levar ao câncer, outras provocam alergias e danos aos sistemas nervoso, endócrino e imunológico. E quando são descartados no lixo comum contaminam o solo e as águas subterrâneas, comprometem a qualidade da água e a saúde dos peixes. Calcula-se que até 2016 será gerado o total de 7,4 millhões de toneladas de lixo eletrônico.
BF: É possível reduzir todo esse descarte?AR: Infelizmente, hoje, se quisermos optar por um consumo responsável desses produtos, não temos muitas alternativas. Na maioria das vezes, encontramos dificuldade para prolongar seu uso. Os fabricantes, em alguns casos, descontinuam a produção de um determinado modelo, o que, com o tempo, dificulta a obtenção de peças de reposição. Além disso, o custo do conserto geralmente é alto em relação a um aparelho novo.
BF: Então o que podemos fazer com o lixo eletrônico que descartamos?

AR: Existem algumas opções, mas ainda estamos trilhando um caminho. Comparativamente, temos poucos casos de coleta e reciclagem de lixo eletrônico. Alguns exemplos: os fabricantes estão obrigados a recolher pilhas e baterias por meio de uma rede de coleta. Para quem utiliza lâmpadas fluorescentes, existem algumas empresas que fazem a reciclagem, mas cobram por esse serviço, assim como outras que reciclam eletroeletrônicos. É possível, ainda, doar seu computador antigo. Mas a maior parte das empresas só os aceita se estiverem em bom estado de uso e se o modelo ainda for atual. A situação não é animadora.

Texto: Tatiana Bonumá e Ana Holanda

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